Ingredientes: tédio, malte e tu
Estava sentado numa mesa rectangular. Eu, cortava uma maça com uma faca de serra e com essa mesma mão levava o peçado cortado à boca...inocente a tudo...olhava o canideo enquanto este se deleitava com o sol da tarde. Senti que me observavas. Olhei para ti, pequeno mas forte, ignorante mas ao mesmo tempo parecia que me ensinavas algo e tu aproximaste-te. Entre nós, já não são precisos cumprimentos, basta aquele olhar.
Desenrolou-se uma conversa banal...mais uma. Mas eu, sei que gostavas daqueles assuntos triviais. Respondia-te às questões de forma rápida, mas sincera, enquanto cortava mais um pedaço.
Paraste de falar e eu desviei o olhar novamente para o cão, enquanto o reflexo da luz solar batia no metal da faca. Tocaste me no ombro e eu coloquei a minha mão sobre a tua. Sabia que querias algo...o quê? Perguntaste me como conseguia contar tão bem histórias. Eu respondi-te que tinha o defeito de saber mentir melhor que ninguem. Tu soltas-te uma gargalhada enquanto expiraste bruscamente ar pelo nariz. Eu sorri, pousei a faca sem te ter percebido. Tu viraste-te, tapando assim o sol que entrava pela janela e perguntaste: "mas não consegues contar histórias sem mentir?". Eu lavei as mãos, enxuguei-as num pano velho, contornei-te e caminhei para longe de ti. Quando já me encontrava no portão da casa, virei-me, olhei para ti e respondi-te alto: "as verdades não têm magia". Acenei-te, fechei o portão, apertei o casaco e meti as mãos nos bolsos...




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